A chegada dos computadores quânticos criptograficamente relevantes ameaça diretamente os algoritmos de chave pública mais utilizados no mundo, como RSA e curvas elípticas, que hoje sustentam a confiança digital em nossas infraestruturas críticas. No setor de telecomunicações, essa vulnerabilidade expõe desde a autenticação de elementos de rede, túneis VPN e sistemas de suporte à operação até serviços em nuvem, certificados digitais e equipamentos de clientes. O grande risco imediato reside na estratégia “Harvest Now, Decrypt Later”, em que dados confidenciais são interceptados hoje para serem decifrados no futuro, o que exige que a preparação para a Criptografia Pós-Quântica (PQC) comece de forma antecipada.
Para resolver esse desafio sem causar rupturas operacionais, foi proposto o modelo MAT-CRIPTO-BR, concebido para avaliar a maturidade de operadoras brasileiras de telecomunicações e apoiar o planejamento dessa transição. Em vez de tratar a mudança como uma simples substituição de software, a proposta traduz obrigações técnicas, organizacionais e regulatórias — como o Regulamento de Segurança Cibernética da Anatel — em capacidades mensuráveis organizadas em oito dimensões de avaliação.
A abordagem estruturada demonstra como transformar uma ameaça complexa em um roteiro prático de tomada de decisão. O modelo estabelece que a visibilidade total por meio de um inventário criptográfico detalhado é o primeiro passo para qualquer estratégia de migração. Em seguida, utiliza o Índice de Prioridade de Migração Pós-Quântica para ordenar ativos operacionais conforme criticidade, exposição e dificuldade técnica, permitindo que sistemas sensíveis como a PKI interna ou plataformas legadas recebam tratamento prioritário. Complementarmente, o Índice Composto de Maturidade sintetiza o grau de prontidão da organização em uma métrica executiva, considerando também a flexibilidade técnica da arquitetura para testes e a conformidade contínua. Com isso, os gestores ganham um instrumento claro para fundamentar investimentos, proteger dados de longa duração e garantir a resiliência das redes de comunicação.
Ficha Técnica:
- Pesquisador: Luiz Ricardo Freitas de Abreu
- Orientador: Dr. Laerte Peotta de Melo
- Programa: Pós-Graduação Profissional em Engenharia Elétrica (PPEE / UnB)
- Laboratório: LabRisk
- Banca Examinadora: Prof. Dr. João José da Costa Gondim (UnB) e Dr. Manoel Pereira de Lima Junior (Amazon)
Sua organização já possui mapeamento dos ativos criptográficos que protegem dados de longa duração, ou a transição para a criptografia pós-quântica ainda é tratada apenas como um tema de pesquisa futura?
Publicado originalmente no site do LabRisk.