Entre o saber e o fazer: um abismo chamado universidade

Nos últimos dias, o mundo perdeu Kongjian Yu, renomado arquiteto e professor da Universidade de Pequim. Um nome que transcendeu fronteiras ao propor o conceito das cidades-esponja, que unem natureza, engenharia e sensibilidade urbana, uma verdadeira síntese entre teoria e prática.

Ao saber de sua morte, não pude deixar de pensar em algo incômodo: quantos professores brasileiros poderiam ter a mesma projeção se o nosso sistema universitário permitisse o mesmo diálogo entre academia e mercado?

No Brasil, a quase totalidade dos docentes em universidades públicas está vinculada ao regime de dedicação exclusiva, que proíbe o exercício profissional fora da instituição. A intenção original é nobre, a de garantir foco total na docência e na pesquisa, mas o efeito colateral é cruel: a universidade acaba se tornando um fim em si mesma.

Durante quase cinco anos, tramitei um pedido para alterar meu regime de trabalho de 20h para 40h sem dedicação exclusiva. Foram anos de espera, pareceres, debates e até mudança de norma interna da UnB, que antes proibia essa possibilidade.

Nesse mês de setembro, finalmente a alteração de meu regime foi concluída. A reflexão é de quantos professores brilhantes já perdemos simplesmente por essa vedação? Eu conheço alguns! Quantos deixamos de ouvir, ano após ano, por manter uma estrutura que separa o saber do fazer?

Talvez esteja aí um dos nossos maiores desafios: reaproximar a universidade da sociedade, não como prestadora de serviço, mas como parte viva dela.